Primeira criação da quadrilogia a desenvolver na região biogeográfica da Macaronésia, unindo segundo uma brisa comum, os arquipélagos da Madeira, Açores, Cabo verde e Canárias.
A criação incide no binómio ilha-oceano e na relação entre ilhas e terá lugar na ilha da Madeira numa primeira instância, na procura de um modelo de pesquisa para as restantes ilhas, reunindo grupos locais de ação e pensamento multidisciplinar sobre as questões da insularidade, convergindo num formato performance-instalação assente na relação dialógica entre corpo e novas dimensões de envolvente.
A ilha, fragmento de terra flutuante, arquétipo do corpo e do próprio mundo em miniatura. Duplamente.
Assumindo o desejo de que a primeira criação venha a ter lugar na Madeira, por muitos fatores -de relações, parcerias e afetos conquistados ao longo do tempo-, este projeto encontra pertinência enquanto investigação preliminar na pesquisa de dramaturgias coreográficas possíveis, de forma válida e autónoma per si, apesar de em ligação direta com um universo mais alargado que envolverá no futuro vários parceiros nos quatro arquipélagos da Madeira, Açores, Cabo Verde e Canárias.
A proposta enquadra-se numa vertente site-specific e community-specific, na derivada do que tem sido o trabalho de fundo da coreógrafa Yola Pinto, na ligação de territórios e pessoas e num interesse permanente no discurso do corpo face ao lugar onde se inscreve, acompanhado pelo métier de composição sonora que toma o corpo como primeiro instrumento, do compositor Marco Santos, formalizando a primeira criação conjunta.
Neste caso muito particular, sobre o universo territorial e humano específico da ilha, fascínio de ambos, do ponto de vista sistémico, mas também metafórico, fenomenológico e poético.
Ressaltando uma forte componente de investigação na procura de materiais estaminais e privilegiando tempos de escuta e observação ativa, breezingSILENCE persegue desta forma um conceito espacial japonês, o ma, sobejamente conhecido no campo da arquitetura, em que a ilha surge como resultado da interação entre a sua própria anatomia tangível e o silencioso lugar “entre” do espaço oceânico.
Ilha, -“pedaço de terra subcontinental cercada por água”-, é aqui imageticamente assumida como um alegado lugar de convergência de comunicabilidades aparentemente silenciosas, que ora a intervala nas diferenças, ora a aproxima nas semelhanças, a outros corpos.
E isso convoca-nos e fascina-nos, nas equivalências que estabelece com a própria natureza Humana, do individual face a um coletivo e na relação entre estes:
Espaço positivo e negativo; Ligação espaço “entre” corpos; Corpo reflexo de envolvente/paisagem; Brisa comum entre corpos; O que nos une e o que nos separa?
A direção artística é composta pela bailarina e coreógrafa Yola Pinto e pelo músico e compositor Marco Santos (aqui também intérpretes), aos quais se juntarão localmente os jovens criadores e bailarinos Beatriz Batista, Rosa Rodrigues e Bruno Ferraz e ainda Filipe Ferraz, videasta também residente na Madeira. Este núcleo representa a equipa profissional que integra o projeto. Paralelamente será constituído um grupo informal de pensadores sobre o território de outras áreas e um grupo multigeracional de participantes da comunidade que integrará as duas apresentações previstas do formato performance-instalação.
O núcleo de parcerias locais, de ampla diversidade institucional, é formado estruturalmente pela associação Wamãe- Antropologia Pública e o MUDAS-Museu de Arte Contemporânea da Madeira, que funcionarão como articuladores com vários espaços, associações, artistas e comunidade, nas localidades circundantes entre o Funchal e a Calheta.
Estes promovem por um lado o contato com especialistas de várias áreas como arquitetos, biólogos, antropólogos ou sociólogos, para formação de um grupo de pensadores informal, e por outro a captação de um grupo ativado da comunidade para desenvolvimento de todo o processo criativo a par e passo com os artistas. Este grupo será convidado a refletir e explorar a relação do corpo com a envolvente, seja ela natural ou humanizada.
As ferramentas utilizadas serão o movimento e o discurso coreográfico, mas também a utilização do registo gráfico (desenho sensorial) como forma de observação e tradução desses materiais que assistem a pesquisa de léxicos multireferenciais.
A proposta tem a intenção de unir segmentos distintos das comunidades locais, com psico-fisicalidades distintas, bem como diferentes tipos de acesso ao contexto artístico, alcançando frestas da população com probabilidades reduzidas de cruzamento, ainda que partilhando um território comum e particularmente circunscrito.
Esta intenção sai valorizada nas parcerias diretas;
– com a associação Wamãe, enquanto associação que desenvolve projetos em vários formatos de arte participativa, conciliando-os às práticas da antropologia e que será basilar para a organização de conversas e debates informais que suportam a pesquisa, cruzando disciplinas do campo da ciência e das Humanidades com metodologias artísticas que informarão fortemente a dramaturgia em curso.
– com o Mudas-Museu de Arte Contemporânea da Madeira, localizado na Calheta, permitirá a aproximação a pessoas fora do centro urbano do Funchal pela ligação às pequenas freguesias vizinhas e viabilizará a comunicação agilizada junto do poder local com vista à implantação da performance-instalação final, a acontecer no exterior do seu próprio edifício, paredes meias com o oceano.
Este será ainda importante agenciador e curador da exposição de registos gráficos, elaborados no decorrer da pesquisa, pelo grupo de participantes na criação.
No final deste processo, que servirá de modelo aos restantes arquipélagos que constituem a região biogeográfica da Macaronésia, ficará para memória futura:
A ilha, fragmento de terra flutuante, arquétipo do corpo e do próprio mundo em miniatura. Duplamente.
OBJETIVOS E PERTINÊNCIA NO PERCURSO DOS ARTISTAS
“a ilha nem sempre é um lugar no mapa mas, muitas vezes, um lugar na mente” -Vilma L. da Fonseca
Se por um lado Yola Pinto tem vindo nos últimos anos a estreitar laços com a Madeira, através da apresentação do seu trabalho segundo várias parcerias, Marco Santos tem um longo histórico de trabalho desenvolvido em ilhas; S.Tomé e Príncipe, Gorée, Palma de Maiorca e para o caso Açores, Madeira, Cabo Verde e Canárias.
Yola Pinto detém ampla experiência em criação transdisciplinar, enraizada na formação em arquitetura, que deixa como marca de água um vínculo iminente a critérios decorrentes do espaço e do lugar nas sinestésicas interações com o corpo e na convicção do desenho como suporte de pensamento de criação. Tem unido incontornavelmente o seu métier coreográfico ao fenómeno sonoro e à paisagem, na ideia de que o corpo fala sempre do lugar onde se inscreve, traduzida em instalações, exposições e espetáculos, quer em nome individual ou em parceria com outros artistas.
Marco Santos tem através da Percussão Corporal eleito o “Corpo” como primeiro instrumento e aprofundado nos últimos anos um vasto repertório sonoro em conjunto com bailarinos e coreógrafos e mais diretamente na partilha desta linguagem com não profissionais. Esta linha está bem expressa na companhia que dirige, a Pulsar – Companhia do Corpo, unindo a experiência do som ao movimento e desdobrando-a através do “Corpo que Habita o Tempo”, resultante da junção do elenco com elementos da comunidade.
Esta primeira criação conjunta com vista a uma performance-instalação surge quase como previsível na decorrência das metodologias utilizadas nas áreas de origem dos criadores intérpretes, ancoradas a um interesse partilhado pelo contexto insular. Encontro este que sai reforçado pelos percursos de ambos na construção de objetos cuja identidade está singularmente conectada à esfera comunitária. Tal representa que estas práticas não surgem como adendas de índole meramente participativa, mas antes constituem o traço primordial de um pensamento artístico polissémico sobre determinado contexto territorial e influenciado por múltiplos ângulos.
Isto sustenta tanto a plasticidade mútua dos seus discursos na origem, como transparece no contato ao território e às pessoas. Trata-se de não só as envolver, mas elegê-las peças basilares, assumindo inequivocamente a arte como agente aglomerador de novas dimensões de envolvente.
Dizemos que este é em simultâneo um projeto de investigação e de criação, porque ambos são um meio e um fim em si próprios: “The how is the what”[1], como afirma o filósofo britânico Timothy Morton. Enunciados coreográfico-sonoros, levantamentos vídeo e registos gráficos, sincronizam um tempo individual e coletivo e serão amplamente informados pelos encontros previstos com conhecedores exímios do território em primeira mão, instigando o sentido de pertença ao processo criativo, a par com a reflexão do corpo enquanto lugar [e não lugar], reflexo ele próprio da insularidade a que pertence.
A deslocação de uma equipa reduzida para a ilha não é por isso uma escolha inocente; gera inevitavelmente novas sinapses artísticas, destacando o papel de intérpretes residentes com quem nunca trabalhámos e do videasta local que elenca dos elementos naturais da ilha uma leitura fractal, antropomórfica -em fragmentos e detalhes largamente ampliados-, re.tratando a sua própria envolvente. A dele e a da criação, através dele.
A interligação destes elementos manifesta a intenção de os incluir numa mesma definição do que consideramos envolvente, um assunto que tem ocupado algumas reflexões na filosofia contemporânea e traçado um lugar crucial no percurso da coreógrafa em torno de uma reflexão cada vez mais urgente nos nossos dias. Para isso a prática artística alia-se a outras áreas para poder pensar em conjunto.
As duas apresentações públicas previstas acontecem no exterior do edifício do MUDAS.Museu, um projeto do arquiteto Paulo David, também madeirense, unifica intérpretes profissionais e participantes de várias idades da comunidade, assim como o resultado dos vários levantamentos vídeo da paisagem natural da ilha projetados em grandes dimensões, recolhidos ao longo das 4 semanas de residência in loco, a par com todas as ações do plano de trabalho.
A relação direta das imagens de larga escala dialogará com o espaço arquitetónico do museu, intercetando volumetrias, propondo novas camadas percetivas, reconfigurando a proximidade do público ao oceano a um palmo de distância, à imensidão de patrimónios partilhados e ao silêncio que dele se estende e que finalmente nos devolve a nós próprios,
mediada pelo corpo dos intérpretes e do público, onde todos estarão em cena e em rede, ali e nos restantes arquipélagos, propósito maior desta criação.